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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

TEMA DE ATUALIDADE: CATEQUESE E HOMOSSEXUALIDADE



           A CATEQUESE E A QUESTÃO DA HOMOSSEXUALIDADE[1]


“Ninguém nasce homem ou mulher,

mas cada um torna-se homem ou mulher”.

(Pereira)

1.      Introdução

A homossexualidade tem ocupado cada vez mais os debates na sociedade atual, especialmente nas áreas das ciências humanas, como no campo científico e médico, psicológico, ético e teológico, político e sociológico, familiar e pastoral, etc. Também no campo catequético trata-se de um aspecto que chama a atenção e demanda respostas às vezes bem práticas dos catequistas. Quantas vezes o catequista se pergunta ou é questionado com perguntas semelhantes a estas: “Fulano é gay. Ele pode ser catequista?”, ou “aquele(a) catequizando(a) tem jeito de ser homossexual. Ele (a) pode ser crismado(a)”?, ou ainda, “estou percebendo que meu catequizando parece estar ‘começando’ a ser gay; será que indicar um psicólogo ou mandá-lo ao padre vai ‘consertá-lo’?”.

Tratar dessas questões não é muito simples, pois envolvem inúmeras e complexas reflexões. Isso não dispensa a Igreja e nossos catequistas de pensarem a questão da homossexualidade sem preconceitos e com a seriedade que o fenômeno merece. Na ausência de uma “teologia da cidadania homossexual” (TRASFERETTI; ZACHARIAS), o que se faz urgente, cabe-nos abrir caminhos para a compreensão e encarar a homossexualidade, situando-a num contexto maior de onde ela nunca deve ser retirada: da sexualidade como um todo. A Igreja ainda fala pouco sobre o assunto e os pronunciamentos do Magistério são reticentes, desconfiados das conclusões advindas da psicologia e de outras ciências, e marcados pelo rigor doutrinal, às vezes bastante duros. Se, por um lado, a realidade cobra cada vez mais atitudes pastorais de solicitude e acolhida plena àqueles(as) que são homossexuais, por outro lado a continuidade histórica do ensinamento da Igreja exige dela que seja prudente no que ensina (às vezes gerando morosidade e inflexibilidade). Chegar a uma harmonia entre o “esplendor da verdade” e o “esplendor do amor” é o grande desafio!

2.      Olhando o fenômeno mais de perto

2.1. A sexualidade

A sexualidade é uma dimensão inerente ao ser humano; é um “jeito” de estar no mundo, de ser pessoa, se relacionar com o outro e com Deus. “Em tudo que sentimos, pensamos, dizemos, e fazemos expressamos nossa condição de ser sexuado” (GOMES; TRASFERETTI). Não podemos reduzi-la aos órgãos genitais masculinos e femininos, mas devemos olhar o todo que a constitui: fatores morfológicos (genitais), fisiológicos (hormônios), neurológicos, genéticos, psicológicos, espirituais, culturais, familiares, ambientais, etc.



A sexualidade caracteriza o que somos e o nosso modo de nos situar diante dos outros. Enquanto realidade que nos impele a sair de nós mesmos e a entrar em relação com os demais, a nossa sexualidade se torna o lugar por excelência dessa experiência, lugar de comunicação e de comunhão, lugar de abertura e de diálogo, lugar da mais genuína experiência de reciprocidade e de amor.



O que humaniza a sexualidade é o esforço que fazemos para dar-lhe um significado positivo e para que ela seja linguagem desse significado. Mas isso só é possível se ela for integrada numa perspectiva mais ampla: a do projeto que assumimos para nos realizarmos como pessoas que querem amar e ser amadas. O amor pode ser assumido como o sentido de todo projeto de vida e, até mesmo, como o projeto de vida por excelência. E isso não é prerrogativa das pessoas heterossexuais.



2.2.  A homossexualidade



Um primeiro problema surge em relação à questão terminológica. Etimologicamente, “homossexualidade” é uma palavra composta de um prefixo grego (òmos), que significa “igual” e de uma raiz latina (sexus) que significa “sexo” e pode ser usada para designar tanto o homem quanto a mulher. Fala-se também de “homogenitalidade” (referindo-se a aspectos biológicos); “homoerotismo” (para sublinhar aspectos emotivos”; de “homofilia” (para indicar aspectos relacionais), ou o termo genérico “gay”. Falava-se muito de “homossexualismo”, palavra que foi abandonada por ter cunho preconceituoso. O termo mais utilizado e que mais retrata a complexidade do fenômeno é mesmo “homossexualidade”. É importante que ser homossexual não se confunde com “pederastia”, “prostituição”, “travestismo” nem com “drag queen”.



Há muitas conceituações, enfatizando ora aspectos biológicos e genitais, ora aspectos relacionais. O moralista Marciano Vidal  apresenta uma boa definição:



“A homossexualidade é a condição humana de um ser pessoal que no nível da sexualidade se caracteriza pela peculiaridade de sentir-se constitutivamente instalado na forma de expressão exclusiva em que o parceiro é do mesmo sexo[2]



Ele faz uma análise de sua definição:



a)      A homossexualidade não é somente, nem exclusivamente, um fenômeno sexual, mas é a condição antropológica de um ser pessoal;

b)      A peculiaridade antropológica do homossexual tem sua raiz e sua manifestação mais evidente no nível da sexualidade entendida de modo plurivalente;

c)      A condição humano-sexual do homossexual se caracteriza por saber-se ele instalado exclusivamente na atração por companheiros do mesmo sexo;

d)      Deve-se entender por homossexual aquele que o é constitutivamente e não só comportamentalmente;

e)      A condição homossexual não traz em si nenhum traço de patologia somática ou psíquica; o homossexual não está necessariamente preso a ela, nem está isento de sua companhia.





Entre tantas distinções e especificações da questão, podem-se ressaltar aqui as chamadas “tipologias”, o que pode ajudar pastoralmente na acolhida e acompanhamento de casos. Fala-se de:



a)      Homossexualidade inata, profunda, constitucional ou primária:  é estruturada dentro de um instinto inato ou na estrutura psicoafetiva da pessoa;

b)      Homossexualidade adquirida, transitória ou periférica: ligada a fatores socioambientais e educativos.   Pode ser “adolescencial” ou “evolutiva”. Trata-se de uma ambivalência afetiva, possível expressão de um processo de maturação ainda não realizado. Também encaixam-se aqui os “homossexuais” por convivência prolongada em ambientes unissexuais, com hábitos, permanecendo ao lado uma vida heterossexual, matrimonial ou não. Ainda entram aqui as perversões, dos que buscam aventuras e novas experiências (quase sempre esses são bissexuais) e a prostituição, faceta mais desumana e banal da sexualidade.

Quanto ao surgimento, causas, origem, há muitas pesquisas e longos debates, que vão desde causas genéticas, passando pela criação e questões psicológicas que envolvem os primeiros anos de vida da criança, educação e ambiente de convívio. Opta-se pela explicação do cruzamento de causas, isto é, pela complexidade de fatores que levam à homossexualidade. Exclui-se a ideia de homossexualidade como doença física ou psíquica e também a ideia de homossexualidade como simples escolha pessoal.



2.3.  Homossexualidade e Bíblia



Ao aproximar-nos dos textos bíblicos é preciso deixar de lado qualquer pretensão de encontrar neles respostas prontas ou adequadas à nossa mentalidade, nem respostas aplicáveis a todas as situações. Devemos, sim, buscar a devida inspiração para enfrentar os desafios, unindo a Palavra às mais variadas áreas do saber. Isso exige uma hermenêutica (interpretação) contextualizada e prudente, que saiba colher os frutos que a Palavra tem a oferecer, sem manipulá-la com meros interesses subjetivos. Recorrer à Palavra de Deus sem reconhecer que alguns textos são mais importantes que os outros, que nem todos têm a mesma autoridade, e que não há palavra na Bíblia que não encarne, ao mesmo tempo, a fé e a memória seletiva da comunidade que a preservou significa usar de forma reducionista a Palavra e fazê-la comprovar ou dizer o que as lentes por meio das quais nos aproximamos dela nos fazem ver.



Os textos bíblicos que falam da homossexualidade são relativamente poucos, tanto no Primeiro quanto no Segundo Testamento. O silêncio de Jesus foi total quanto ao assunto, por não ter aparecido ocasião para um posicionamento seu ou por sua postura mais global de enfocar os problemas humanos. Os textos são muito vagos, quase sempre ligados ao culto ou às leis religiosas, como Lv 18,20 e Lv 20,13. Outros são mais distantes ainda, como  a destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 19) e a saga da concubina violentada em Gabaá(Jz 19), ambos ligados à falta de hospitalidade e pretensão de desonrar estrangeiros.  De maneira mais explícita, é Paulo que trata da questão em 1Cor 6,9-10;1Tm 1,9-10; Rm 1,26-27. Há referências em 2Pd 2,6-9 e Jd 7. Estes textos devem ser lidos dentro  do seu contexto: influências pagãs e idolatrias, mentalidade judaica. Não podemos cobrar de nenhum autor bíblico uma compreensão da homossexualidade como a que temos hoje.



2.4. Posição atual da Igreja



Todos os documentos da Igreja que tratam do assunto revelam um esforço lento de compreensão do fenômeno da homossexualidade, sobretudo nas considerações éticas e pastorais, levando em conta os critérios científicos emergentes nos últimos tempos e as distinções dos modos como a sexualidade se apresenta. De modo geral, a Igreja incentiva que se acolha a pessoa, aconselhando a castidade e a renúncia a atos homossexuais. Mas aí vem a questão crucial: como desvincular os atos da pessoa? Como aconselhar alguém a renunciar ao amor a dois, se o celibato não for sua vocação? Diante disso, moralistas e teólogos se dividem.



2.5.  Orientações pastorais e catequéticas



Pessoas homossexuais devem ser tratadas com respeito e dignidade. Todo educador da fé, todo agente de pastoral, catequistas, podem e devem propor ações pastorais que visem a integrar as pessoas homossexuais em sua comunidade. É necessário também educar a comunidade para ser receptiva às pessoas homossexuais. Isso implica e inclui o combate à ignorância, que julga e vitima as pessoas de maneira medíocre. Os educadores da fé têm um papel fundamental na educação moral da comunidade, orientando os cristãos no combate à homofobia e heterossexismo. O rigor doutrinal não pode excluir a solicitude pastoral e o amor desmesurado que acolhem e transformam vidas.





NA PRÁTICA:

a)      A pessoa homossexual não pode ser rejeitada pela comunidade porque é homossexual, nem olhada com “piedade” por conta de sua “infeliz” condição sexual. Deve-se criar um clima comunitário e grupal sadio e bem informado, que acolha e não se fixe na diferença. “Ser diferente é normal”...
b)      Para facilitar a convivência, é preciso vencer o preconceito, para que haja “fraternidade eucarística”;
c)      O modo de vida homossexual não deve ser exaltado, nem denegrido, mas acolhido e respeitado com suas diversas características, valores e debilidades que nele se fazem presentes. A dignidade humana está acima da orientação sexual;
d)      Os homossexuais católicos têm as mesmas necessidades sacramentais e os mesmos direitos que os demais membros da Igreja; sua consciência decidirá, após prudente orientação, se devem ou não receber sacramentos;
e)      Numa sociedade marcadamente heterossexual, muitos homossexuais são solitários, carecem de autoestima e são impelidos a buscar encontros fortuitos como único meio de conseguir aceitação, mesmo que temporária. Por isso, incluí-los é saudável e humano, além de respeitar os seus grupos específicos, desde que não se tornem guetos isolados do resto da comunidade;
f)       Atenção especial se dê aos adolescentes. Muitos começam a se descobrir entre 12 e 15 anos e não podem ficar abandonados à própria sorte pela família e pela Igreja. É preciso trabalhar essas situações, pois podem ocorrer confusões e casos de “homossexualidade” periférica ou temporária;
g)      Como homossexualidade não é doença, não há porque encaminhar homossexuais a psiquiatras ou psicólogos com o intuito de “mudar” ou “inverter” sua orientação, o que é praticamente  impossível e violento. A condução ao psicólogo pode ser muito importante quando a pessoa não sabe lidar com sua situação ou encontra muitas dificuldades e pressões;
h)      A doutrina da Igreja ensina a castidade e a renúncia aos atos sexuais e “casamento” homossexual. Quando isso é escolha da pessoa, que seja  apoiada e ajudada a consolidar seu projeto. No entanto, não se pode impor essa situação ao homossexual ou excluí-lo por fazer uma opção diferente. É preferível uma relação a dois respeitosa e com amor à promiscuidade ou sofrimento ainda maior de solidão e abandono. E ninguém tem o direito de envenenar o amor!









[1] Texto baseado em:
GOMES, A.; TRASFERETTI, J. Homossexualidade: orientações formativas e pastorais. São Paulo: Paulus, 2011
TRASFERETTI, J; ZACHARIAS, J.A. Homossexualidade e ética cristã. In Vida Pastoral, ano 51, no. 275, pg. 19-24. São Paulo: Paulus, 2010
OLIVEIRA, J.L.M. Acompanhamento das vocações homossexuais. São Paulo: Paulus, 2008

[2]  VIDAL, M. Para conhecer a ética cristã, Santuário: 2005,p. 266

2 comentários:

  1. Vanildo, muito bom o seu post. Nosso compromisso cristão é de sempre acolher e buscar a conciliação. Porém isto não supera nem tampouco nos exime de apontar o que é desvio. Embora o próprio Cristo não tenha tratado o assunto, São Paulo é claro em Rm 1, 26-27: "Por isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. 27. Do mesmo modo também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario."

    Leia mais em: http://www.bibliacatolica.com.br/01/52/1.php#ixzz1y5HIXHEc

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    1. Olá! Sem dúvida, temos que considerar a complexidade da questão e cuidar para não ler os textos bíblicos descontextualizados da sua época, cultura e autor. Vale a pena aprofundar o sentido dessa citação no livro: GOMES, A.; TRASFERETTI, J. Homossexualidade: orientações formativas e pastorais. São Paulo: Paulus, 2011
      Abçs

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