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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A PRODUÇÃO CIENTÍFICA E O RISCO DA PRESSA[1]

Vanildo de Paiva

O deus Crónos, tempo voraz e implacável, parece ter estabelecido seu reinado, como sempre gerando seus filhos, e devorando-os a seguir. Sob a égide de Crónos, o homem contemporâneo corre de um lado a outro, imerso em um furacão devastador, que arrebata e exige dele que passe pela vida no ritmo apressado dos segundos que se sucedem ininterruptamente, sem se deter nela para tomá-la a sério e fazê-lo sua. E as Moiras fiandeiras estão a tecer o “destino” de cada um e com tesoura à mão para cortar o fio da vida a qualquer instante. Instaura-se, inevitavelmente, o império da rapidez, que traz consigo a competição, a produção acelerada dos bens, a superficialidade, a afirmação crescente do virtual, a consideração reducionista da realidade a alguns poucos aspectos, e, sobretudo, a liquidez das relações e das produções humanas, se quisermos usar uma categoria cara ao sociólogo Bauman.

Vão ficando para tempos cada vez mais distantes o espírito contemplativo, as atitudes da admiração e do pasmo, que deram origem aos primeiros pensadores e filósofos, o olhar acurado e paciente que levanta questões, que indaga os porquês, que respeita a realidade, que produz o saber, que instaura a ciência. À modernidade que, de alguma maneira já reduzira o fazer ciência ao empírico, à inspiração positivista que já tentara tornar a ciência cativa do observável e controlável, segue agora o frenético ritmo do tempo que impele o homem à fluidez de todas as coisas. Inclusive a produção científica não está imune desse mal.

Não se trata, obviamente, de querer exorcizar os dias atuais ou reverenciar de modo saudosista o passado, mas de atentar para alguns aspectos desafiadores da realidade atual, em contraponto a tantos valores e conquistas da modernidade e pós-modernidade. No campo da produção científica, interessa-nos olhar criteriosamente o que foi apontado por Virgínia Kastrup, em 2010, no XIII Simpósio da ANPEPP. Com louvor se destaca o crescimento da produção científica nas universidades e a divulgação de conhecimentos. As especializações em todas as áreas do conhecimento, inclusive na Psicologia, conclamam a investigações, descoberta e solução de problemas, ampliação e partilha do saber. No entanto, é extremamente relevante o  questionamento trazido pela referida autora quanto à qualidade tanto formal como material das pesquisas feitas e textos produzidos, o que inclui, obviamente, as metodologias não raras vezes descuradas ou mesmo sucateadas, em nome da pressa ou do imperativo do produzir para ter nome, status, ou competir. Isso seria uma afronta ao espírito científico e à mais séria e elaborada tradição dos verdadeiros cientistas, produtores do saber comprometidos com a realidade e com os que partilham sua produção.

De fato, a ciência não é apenas capricho particular, mas contribuição social. Um saber partilhado tem força de mobilização do sujeito particular e coletivo e engendra sempre um novo que se espera melhor. A Psicologia tem entendido cada vez melhor essa sua missão, numa história rica que vem desde concepções “curativas”, restritas ao indivíduo isolado, quase sempre em um consultório, para enveredar pelos mais diversos caminhos e dimensões da prevenção, da intervenção na realidade social, nas áreas da saúde, da educação, das relações grupais e comunitárias, etc. e esse fazer é, simultaneamente, produção de conhecimento e não apenas aplicação de teorias e técnicas básicas. No entanto, esse saber produzido nem sempre encontra expressão e tradução à comunidade científica.

A Psicologia, enquanto ciência e profissão, não se ocupa apenas da “cura”, conservação e transmissão de um saber já constituído. O psicólogo é um homem situado, contextualizado e sofre, continuamente, o impacto das mudanças de sua realidade, mudanças essas muitas vezes frenéticas. Obviamente, ele muda com elas, e é bom que assim o seja, numa identidade sempre cambiante. “Quero uma psicologia que sempre se metamorfoseie”, dizia a psicóloga Ana Bock numa palestra sobre o compromisso e a identidade social do psicólogo. Sendo assim, o saber sempre contemporâneo por ele produzido pode e deve refletir essa realidade em mudança, para que sua palavra e ação interventivas sejam significativas não somente para mudanças individuais, mas também para novas configurações sociais, sempre mais a serviço da vida, do bem-estar, da saúde e da libertação das pessoas.

E que a ciência, tecida com os fios das realidades novas, em confronto com a tradição e riqueza acumulada desde o seu início, esteja atenta para não se auto-contaminar pela pressa estéril, pelo espírito competitivo e consumista, pela superficialidade e descartabilidade, pela perda da visão ampla liquidificada pelas especializações e pela implacabilidade de Crónos, que, em nome de uma falsa eficiência, pode comprometer sua eficácia!





[1]  Texto produzido por ocasião do processo seletivo para Mestrado na PUCCAMP em outubro/2011

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