Total de visualizações de página

sábado, 25 de fevereiro de 2012

ME CHAMEM DE VELHA

                                                                                 Eliane Brum (Revista Época)

A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem
Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra
“idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era
impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam
a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei:
“roubaram a velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que
escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século.
Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da
juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja
atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra
“fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E
saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo
que, se tivermos sorte, chegará para todos.

Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida
inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice
também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso
mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou
terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a
amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão
distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de
não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no
diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.

A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos,
também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência
dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como
uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um
programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse
que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque
afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero
viver a minha morte”.

Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum
vampiro achasse o meu pescoço interessante o suficiente para me
garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não
existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só
para dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas
essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum. Que ninguém quer
morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para
engordar o nosso medo sem que aprendamos nada que valha a pena.

A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que
a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável e posso
morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa
cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a
minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é
apenas o meu querer, sem a pretensão de que a minha escolha seja
melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor
e sem tubos, porque o morrer será minha última experiência vivida.
Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento sobre a
existência humana. Minha última chance de ser curiosa.

Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui
localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário
do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a
morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica
que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da
proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa
sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor,
envelhecer é perder valor. Os eufemismos são a expressão dessa
desvalorização na linguagem.

Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa
casa de repouso. Não, eu não estou na velhice. Faço parte da melhor
idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam bem
intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua. O que fazem
é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo
quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a
sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma.

Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na
linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma
palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil,
palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma
condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser
apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. Alguém vê um Boris
Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique
Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.

Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela
língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa
sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se
adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam
fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas
ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar.
Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que
velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência,
velhos morrem porque não desistiram de viver.

Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um
livro chamado “O idoso e o mar”? Não. Como idoso o pescador não
lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães
Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”:
“Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e
velhas que velhavam...”.

Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.

Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que dos 40, já começo
a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de bobagem. O tal do “espírito
jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso. Ainda estou me
acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados para
descobrir com quem estão falando. Mas se existe algo bom em
envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito
velho”. Esse é grande.

Vem com toda a trajetória e é cumulativo. Sei muito mais do que sabia
antes, o que significa que sei muito menos do que achava que sabia aos
20 e aos 30. Sou consciente de que tudo – fama ou fracasso – é
efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer papinho mole.
Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para saber
que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas.
Conheço cada vez mais os meus limites e tenho me batido para
aceitá-los. Continua doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as
minhas perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos
comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me importam e jogo
os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo envelheçam porque
elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que tenha tempo
para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e
tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar
porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante,
intensa e engraçada do que sou hoje.

Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências.
Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios
na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para
saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas
dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos
buscar. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.

Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a
velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à
cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e
a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode
parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais
escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro,
se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.

Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei
honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou
envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro,
espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem
de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

DEVOÇÃO AO DIVINO PAI ETERNO

                                                                                                                           Tiago de França


Entre os dias 8 e 22 do mês passado, participei das Santas Missões Populares Vicentinas, em Coronel Murta, pequena cidade da região do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Várias coisas me chamaram a atenção, dentre as quais a devoção ao Divino Pai eterno. Durante as visitas às famílias fui indagado várias vezes a respeito da legitimidade desta devoção popular, que está se espalhando por todo o país.

Curiosamente, resolvi assistir a uma missa presidida pelo famoso Pe. Robson, redentorista e principal divulgador de tal devoção. Justamente no dia em que assisti à missa na TV Aparecida, o citado padre falou, insistentemente, da construção do novo santuário, que custará muitos milhões de reais.

Irei pontuar algumas considerações a respeito desta devoção, respondendo, assim, aos amigos e leitores de meu Blog, que, insistentemente, tem me pedido para escrever alguma coisa sobre esta questão.

1 - Na Igreja da Idade Média, a devoção aos santos era algo quase que fundamental na vida eclesial e a afluência do povo era tão grande que a Igreja chegou até a se utilizar da boa fé do povo para explorá-lo, ou seja, ganhou-se muito dinheiro e muitos bens à custa da devoção aos santos. Assim sendo, isto não é uma novidade na vida da Igreja. Após as denúncias de M. Lutero no séc. XVI, a situação melhorou um pouco, mas os desvios e/ou excessos continuaram dificultando a prática de uma fé verdadeiramente cristã.

2 - A imagem do Divino Pai eterno, a meu ver já é um desvio. Os cristãos de outras Igrejas podem, com muita razão, nos acusar, em certo sentido, de sermos idólatras. Penso que não há necessidade de fabricarmos uma imagem de Deus. Deus não tem forma, ninguém jamais o viu, como podemos fazer-lhe uma imagem? Na imagem fabricada, o Pai eterno é um velho barbudo! Deus não é um ancião! Na mesma imagem aparece o Filho, o Espírito e Maria. Desta forma, não é uma imagem da Trindade Santa, é algo diferente que passou despercebido. Ironicamente, alguns se perguntam o que Maria está fazendo naquela imagem!

3 - A devoção aos santos e santas de Deus é legítima na Igreja, é recomendável. É verdade que não é o fundamental na vida cristã, pois o essencial é o seguimento a Jesus de Nazaré. Sabemos muito bem que os santos foram e são mulheres e homens que se colocaram e se colocam no caminho do Cristo Jesus. Penso que não podemos ser devotos de Deus. Somos filhos de Deus e não precisamos nos relacionar com Ele como nos relacionamos com os demais santos. Deus é o Santo por excelência e a fonte de toda a santidade. Nossa relação com Deus deve ser filial, não devocional.  A partir das perguntas das pessoas percebo que muita gente confunde o Pai eterno com um santo comum. Uma jovem dona de casa me disse: "Eu adoro o Divino Pai eterno, tudo o que eu peço, alcanço. Ele pede a Deus tudo o que eu preciso!" O vínculo é tão devocional que há a imagem e a novena. Como podemos nos relacionar com Deus através de promessas e novenas?...

4 - É verdade que Deus não vai levar em consideração este equívoco de ordem doutrinal e pastoral ao escutar o clamor de um pobre sofrido que lhe suplica através de uma devoção como essas, mas isto não justifica a permanência da mesma de forma equivocada. O maior problema está no fato de não levar as pessoas ao seguimento de Jesus de Nazaré, mas à dependência e ao cultivo da imagem de um Deus meramente dispensador de todas as graças. Não vejo diferença entre o apelo desta e outras formas apelativas de devoção e o "Pare de sofrer!" da Igreja Universal do Reino de Deus. O Pe. Robson insiste nisto: "o Pai eterno não quer ver ninguém sofrendo, faça sua promessa, venha à Trindade (GO), faça conosco a novena e seja um benfeitor na construção do novo santuário!"

5 - Não precisamos prometer nada a Deus. Ele não nos atende por força de promessas. A relação com Ele deve ser filial e gratuita. Nossa missão é seguir seu Filho Jesus e construirmos o Reino. Devoções apelativas como esta desviam os cristãos de sua missão fundamental. Por isso, merece correção e reorientação. A missão da Igreja não é levar às pessoas a santuários através de incansáveis e inúmeras peregrinações.

A adesão ao projeto de Jesus não acontece em peregrinações, mas no cotidiano da vida, vivendo-se o amor na relação com o próximo. Não adianta se apegar às devoções se não se busca fazer a vontade de Deus. Fora do seguimento de Cristo e de seu projeto libertador toda e qualquer devoção perde seu sentido e se transforma em instrumento de alienação; torna-se fardo pesado nas costas dos pobres, que assumem certa obrigação de tirar do pouco dinheiro que tem para sustentar e manter estruturas pesadas e dispendiosas.

Espero que o leitor tenha compreendido a mensagem deste texto. Não estou indo contra as manifestações da religiosidade popular. Estas são ricas e necessárias ao povo de Deus, mas os desvios e excessos devem ser prudentemente observados, a fim de que o Evangelho de Jesus de Nazaré não seja marginalizado. A Igreja deve levar as pessoas a um encontro com o Deus de Jesus de Nazaré, não a uma imagem de Deus. É inadmissível que Deus seja reduzido a objeto de devoção popular, pois é o eterno mistério, portanto, insondável. A verdadeira imagem de Deus está no Cristo crucificado. Não podemos fugir da cruz de Cristo, pois "se com ele morremos, com ele viveremos; se com ele sofremos, com ele reinaremos. Se nós o renegarmos, também ele nos renegará. Se lhe formos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode renegar a si mesmo" (2 Tm 2, 11 - 13). Devoções como esta induzem as pessoas a pensar que Deus tem a obrigação de livrá-las de seus sofrimentos, quando na verdade o sofrimento é inerente à condição humana. É verdade que Ele não quer nos ver sofrendo, mas é verdade também que não enviou seu Filho com a missão de curar e libertar as pessoas de seus sofrimentos. Jesus curou e libertou muita gente, mas esta nunca foi sua missão fundamental.