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domingo, 25 de dezembro de 2011

QUANDO NASCEU JESUS?


Perguntemos a Maria de Madalena, onde e quando nasceu Jesus. E ela nos responderá: - Jesus nasceu em Betânia. Foi certa vez, que a sua voz, tão cheia de pureza e santidade, despertou em mim a sensação de uma vida nova com a qual até então jamais sonhara.

Perguntemos a Francisco de Assis o que ele sabe sobre o nascimento de Jesus. Ele nos responderá: - Ele nasceu no dia em que, na praça de Assis entreguei minha bolsa, minhas roupas e até meu nome para segui-lo incondicionalmente, pois sabia que somente ele é a fonte inesgotável de amor.

Perguntemos a Pedro quando se deu o nascimento de Jesus. Ele nos responderá: - Jesus nasceu no pátio do palácio de Caifás, na noite em que o galo cantou pela terceira vez, no momento em que eu o havia negado. Foi nesse instante que acordou minha consciência para a verdadeira vida.

Perguntemos a Paulo de Tarso, quando se deu o nascimento de Jesus. Ele nos responderá: - Jesus nasceu na estrada de Damasco quando, envolvido por intensa luz que me deixou cego, pude ver a figura nobre e serena que me perguntava: "Saulo, Saulo porque me persegues?" E na cegueira passei a enxergar um mundo novo quando eu lhe disse: "Senhor, o que queres que eu faça?!"

Perguntemos a Joana de Cusa onde e quando nasceu Jesus. E ela nos responderá: - Jesus nasceu no dia em que, amarrada ao poste do circo em Roma, eu ouvi o povo gritar: "Negue! Negue!" E o soldado com a tocha acesa dizendo: "Este teu Cristo ensinou-lhe apenas a morrer?" Foi neste instante que, sentindo o fogo subir pelo meu corpo, pude com toda certeza e sinceridade dizer: "Não me ensinou só isso, Jesus ensinou-me também a amá-lo".

Perguntemos a Tomé onde e quando nasceu Jesus. Ele nos responderá: - Jesus nasceu naquele dia inesquecível em que ele me pediu para tocar as suas chagas e me foi dado testemunhar que a morte não tinha poder sobre o filho de Deus. Só então compreendi o sentido de suas palavras: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida".

Perguntemos à mulher da Samaria o que ela sabe sobre o nascimento de Jesus. E ela nos responderá: - Jesus nasceu junto ao poço de Jacó na tarde em que me pediu de beber e me disse: "Mulher eu posso te dar a água viva que sacia toda a sede, pois vem do amor de Deus e santifica as criaturas". Naquela tarde soube que Jesus era realmente um profeta de Deus e lhe pedi: "Senhor, dá-me desta água".

Perguntemos a João Batista quando se deu o nascimento de Jesus. Ele nos responderá: - Jesus nasceu no instante em que, chegando ao rio Jordão, pediu-me que o batizasse. E ante a meiguice do seu olhar e a majestade da sua figura pude ouvir a mensagem do Alto: "Este é o meu Filho Amado, no qual pus a minha complacência!" Compreendi que chegara o momento de ele crescer e eu diminuir, para a glória de Deus.

Perguntemos a Lázaro onde e quando nasceu Jesus. Ele nos responderá: - Jesus nasceu em Betânia, na tarde em que visitou o meu túmulo e disse: "Lázaro! Levanta-te e sai". Neste momento compreendi finalmente quem Ele era... A Ressurreição e a Vida!

Perguntemos a Judas Iscariotes quando se deu o nascimento de Jesus. Ele nos responderá: - Jesus nasceu no instante em que eu assistia ao seu julgamento e a sua condenação. Compreendi que Jesus estava acima de todos os tesouros terrenos.

Perguntemos, finalmente, a Maria de Nazaré onde e quando nasceu Jesus. E ela nos responderá: - Jesus nasceu em Belém, sob as estrelas, que eram focos de luzes guiando os pastores e suas ovelhas ao berço de palha. Foi quando O segurei em meus braços pela primeira vez que senti se cumprir a promessa de um novo tempo através daquele Menino que Deus enviara ao mundo, para ensinar aos homens a lei maior do amor.

E eu pergunto a VOCÊ: quando e onde Jesus nasceu?

Feliz Natal!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011


NÃO IMPORTA QUE APELIDO LHE DÊEM OU O QUANTO O ROTULAM,  IMPORTA QUE  VOCÊ É MEU (MINHA) GRANDE AMIGO(A) E...PONTO FINAL!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS...

É com muito constrangimento que muitas mulheres católicas leram a noticia publicada em vários jornais nesse último final de semana de que a Arquidiocese de Madri com aprovação papal autorizou a concessão do perdão e indulgência plenária às mulheres que confessarem o aborto por ocasião da visita do papa. A impressão que tivemos é que o papa, o Vaticano e alguns bispos gostam de brincadeiras de mau gosto com as mulheres. Não sabemos em que mundo esses homens vivem, quem pensam que são e quem pensam que somos!

Primeiro, concedem o perdão a quem pode viajar para assistir a missa do papa e passar pelo "confessionódromo" ou pelo conjunto de duzentos confessionários brancos instalados numa grande Praça pública de Madri chamada "Parque do Retiro". O perdão deste "pecado" tem local, dia e hora marcada. Custa apenas uma viagem a Madri para estar diante do papa! Quem não faria o esforço para tão grande privilégio? Basta ter dinheiro para viajar e pagar a estadia em algum hotel de Madri que o perdão poderá ser alcançado. Por isso nos perguntamos: que alianças a prática do perdão na Igreja tem com o capitalismo atual? Como se pode viver tal reducionismo teológico e existencial? Quem está tirando benefícios com esse comportamento?

Segundo, têm o desplante de afirmar que o perdão deste "crime hediondo" como eles costumam afirmar, é dado apenas por ocasião da visita do papa para que n essa mesma ocasião as fiéis pecadoras obtenham "os frutos da divina graça" confessando o seu pecado. Como entender que uma falta é perdoada apenas quando a autoridade máxima está presente? Não estariam reforçando o velho e decadente modelo imperial do papado? Quando o Imperador está presente tudo é possível até mesmo a expressão da contradição em seu sistema penal.

Não quero retomar os argumentos que muitas de nós mulheres sensíveis às nossas próprias dores temos repetido ao longo de muitos anos numa breve reflexão como esta. Mas esse acontecimento papal madrilenho, infelizmente, só mostra mais uma vez, um lado ainda bastante vivo no Vaticano, ou seja, o lado das querelas medievais em que questões absolutamente sem peso na vida humana eram discutidas. E mais, demonstra desconhecer as dores femininas, desconhecer os dramas que situações de violência provocam em nossos corpos e corações.

Ao conceder o perdão ao "crime" do aborto na linguagem que sempre usaram, de forma elitista revelam o rosto ambíguo da instituição religiosa capaz de ceder ao aparato triunfalista quando sua credibilidade está em jogo. Podem abençoar tropas para matar inocentes, enviar sacerdotes como capelães militares em guerras sempre sujas, fazer afirmações públicas em defesa da instituição condenando pobres e oprimidas, abrir exceções à regra de seus comportamentos para atrair jovens alienados dos grandes problemas do mundo ao rebanho do Papa. A lista dos usos e costumes transgressores de suas próprias leis é enorme...

Por que reduzir a vida cristã a pão e circo? Por que dar um espetáculo de magnanimidade em meio a corrupção dos costumes? Por que criar ilusões sobre o perdão quando o dia a dia das mulheres é cheio de perseguições e proibições às suas escolhas e competências?
Somos convidadas/os a pensar no aspecto nefasto da posição do papa e dos bispos que se aliaram a ele. O papa não concedeu perdão e indulgência total ou plena "urbe et orbe", isto é, para todas as mulheres que fizeram aborto, mas apenas àquelas que se confessaram naquele momento preciso e por ocasião da visita do papa à Espanha. Não é mais uma vez a utilização das consciências especialmente das mulheres para fins de expansionismo de seu modelo perverso de bondade? Não é mais uma vez abrir concessões obedecendo a uma lógica autoritária que quer restaurar os antigos privilégios da Igreja em alguns países europeus? Não é uma forma de querer comprar as mulheres confundindo-as diante da pretensa magnanimidade dos hierarcas?

Será que as autoridades constituídas na Igreja Católica e de outras Igrejas são ainda cristãs? São ainda seguidoras dos valores éticos humanistas que norteiam o respeito a todas as vidas e em especial à vida das mulheres?

Creio que mais uma vez somos convocadas/os a expressar publicamente nosso sentimento de repúdio à utilização da vida de tantas mulheres como pretexto de magnanimidade do coração papal. Somos convidadas/os a tornar pública a corrupção dos costumes em todas as nossas instituições inclusive naquelas que representam publicamente nossas crenças religiosas. Somos convidadas/os a ser o corpo visível de nossas crenças e opções.

Fazendo isso, não somos melhores do que ninguém. Somos todas pecadoras e pecadores capazes de ferir uns aos outros, capazes de hipocrisia e mentira, de crueldade e crueldade refinada. Mas, também somos capazes de dividir nosso pão, de acolher a abandonada, de cobrir o nu, de visitar o prisioneiro, de chamar Herodes de raposa. Somos essa mistura, expressão de nosso eu, de nossos deuses, dos espinhos em nossa carne convidando-nos e convocando-nos a viver para além das fachadas atrás das quais gostamos de nos esconder.

A teóloga Ivone Gebara é doutora em Filosofia pela Universidade Católica de São Paulo e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Pelo CEBI, colaborou no livro Terra: Eco Sagrado.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A ESPIRITUALIDADE DO IPÊ

                                                                   Rita de Cássia Rezende

Meu Ipê começou a florir. Ele esperava pela chuva, certamente. Desabrochou seu amarelo ouro pra encantar a vida.
         Tenho um Ipê no meu quintal. Herança de meu pai, que adorava árvores que florescem. É dele também outra herança: o flamboyant!
         Eu adotei o Ipê do papai. E passei a observá-lo com os olhos do coração e da sensibilidade. Ah! Quanta coisa a aprender com a beleza que a natureza nos oferece. Oferecimento gratuito...silencioso... e ao mesmo tempo gritante.
         Meu Ipê não é tão majestoso quantos outros que olhei. Tem um porte mediano, simples, porém é esguio, vaidoso. Sabe que é observado por olhos curiosos e ávidos pelos detalhes. Caprichosamente ele se deixa observar, como que querendo dizer: “Põe seu olhar em mim e veja o que lhe reservo”.         
         Mais animado ainda ficou meu olhar. Observei-o atentamente e fui captando, a cada dia, as mudanças que meu Ipê se permitia. E, quanta boa surpresa tem acontecido.
         É mágico e belo o que acontece. Como um ritual, o Ipê desenha sua trajetória de transformação. Como a ‘sabedoria bíblica’, o Ipê brinca diante da presença de Deus e de todos nós, homens e mulheres, enfeitando nossa existência. Longo tempo, o Ipê é geometria de galhos entrelaçados. Aos poucos, os desenhos geométricos, se enchem de folhas, vocacionadas a cair para tornarem-se tapete aos pés descalços. As folhas caem, mas não se inutilizam. Tornam-se passarela para os passos. Quilômetros deles!
         O desejo das folhas é darem lugar ao amarelo ouro das flores! Elas se abdicam dos galhos do Ipê e da altura, para que o perfume, a cor e felicidade das flores, se tornem espaço de encantamento. As folhas têm seu encanto, claro. Mas elas duram o tempo de dar seu lugar a outras possibilidades.
         As flores vêem tocar outra sinfonia, diferente da sinfonia das folhas. Flores...flores...tocam a sinfonia da liberdade, da ausência de fardos, da alegria, do lúdico.
         O Ipê, com sua pedagogia e espiritualidade, vem ensinando-me a beleza do “transformar-me”. Que delicia saber-me com essa perspectiva: transformação é fruto da persistência que busca novas metas e novas realizações.
         Posso realizar-me como folha, mas a realização da flor é a ousadia. A flor do meu Ipê é ousada, pois curta é sua existência. Ela é o avanço da folha e a canção da vida! É a razão de ser da árvore, e o colorido dos jardins. É a brincadeira da árvore e a felicidade das folhas.
         Minha vida tem seu momento de folha: preenche o galho seco do Ipê, dá-lhe abrigo ao frio e ao calor. Cai para a possibilidade da flor. Eu posso preencher vazios existenciais dentro de mim, alimentar por um tempo a solidão da minha alma e... sair sorrateiramente para que a inteireza da beleza resplandeça. Vazios preenchidos, solidão acompanhada. Outro rito tem seu inicio: o rito do encanto da cor da flor, do cheiro e da alegria! Um rito não anula outro. Complementa-o. Dá-lhe significado. O rito do Ipê em flor é pura oração. É conversa comigo mesma. É silêncio que grita.
         Adoro os ritos. Especialmente a mudança deles e sua complementaridade! Ritos organizam e enfeitam a vida! Contam experiências vividas de relacionamentos, de amor, de encontros e saudades. De esperança e sonhos.
         Minha vida quer ser liturgia a cada instante alimentada pela espiritualidade de meu Ipê.  Seqüencia de ritos: árvore, galhos entrelaçados, folhas, flores. Puro sentimento, sinais e gestos. O que é real-meu momento e o que eu espero- minha parusia!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

QUINTAL

Quando uma pessoa começa a melhorar de vida, pensa logo em comprar uma boa casa. E o que é uma boa casa? É preciso um jardim e uma piscina, imaginam os pais. Eles querem para as crianças uma infância saudável, com confortos que nunca tiveram, mas não pensam no principal: um quintal. Um quintal não precisa ser grande, e o chão deve ser de terra batida. Nele deve haver algumas árvores que não pareçam ter sido plantadas, mas sempre existido. Um abacateiro e uma goiabeira, de goiaba vermelha, são fundamentais. No fundo, um galinheiro tosco, com uma porta quebrada, para que as três ou quatro galinhas possam correr quando alguém quiser pegá-las. Nenhum computador levará uma criança ao deslumbramento que ela terá ao encontrar um ovo e segurá-lo, ainda quentinho. É o mistério da vida nas mãos dela, mais absoluto e mais simples do que qualquer livro de filosofia.

Um dia, a cozinheira avisa que vai matar uma galinha para o molho pardo. Os meninos pedem para ver a cena trágica; a mãe não quer, mas a empregada, acostumada, com o facão na mão, facilita. Se a galinha tiver dentro da barriga aquele monte de ovinhos, aí a lição de morte – e de vida – será ainda mais completa. E mais lições serão aprendidas quando alguém sugerir fazer uma peteca com as penas mais duras e algumas palhas de milho. Mas será que alguém sabe do que estou falando?


Voltando: esse quintal deve ser meio abandonado, mas muito limpo; duas vezes por dia a empregada, cantando bem alto, dá uma varrida. É importante também que haja um tanque para lavar o pé de alguma criança quando ela pisar descalça numa porcaria, e um varal com pregadores de roupa de madeira. Nesse lugar, não vai ter horta nem pomar organizado. Em compensação, é bom que exista do outro lado do muro uma enorme mangueira para que se possa praticar o melhor crime do mundo: roubar as frutas do vizinho. Nos fundos de um quintal, deve haver também uma touceira de bananeiras ou bambus e, claro, um adulto dizendo sempre para tomar cuidado, pois ali pode ter uma cobra. Não há infância que se preze sem medo de cobra. Quando as goiabas começam a crescer, fica todo mundo de olho até a primeira delas estar no ponto para ser arrancada e mordida ali mesmo, sem lavar. E que sensação terrível quando se vê o bicho da goiaba se mexendo. Aí, sem que ninguém precise dizer nada, você começa a aprender que a vida é assim: ou se compra uma goiaba bonita, mas sem gosto, ou se espera com paciência ela amadurecer no pé até desfrutar o supremo prazer de dar aquela dentada – com direito a bicho e tudo.

Mas o tempo voa. De repente você se sente só, abre o caderno de telefones e percebe sua pouca afinidade com os nomes que estão lá, que tem vivido uma vida que não tem nada a ver e começa a procurar um sentido para as coisas. Não encontra resposta, claro, mas um dia está no trânsito, vê um terreno baldio, se lembra daquele quintal no qual não pensa há anos e percebe que essa é a lembrança mais importante e mais feliz de sua vida. E passa a olhar o mundo com a superioridade de quem tem um tesouro guardado dentro do peito, mas ninguém sabe.

                                                                                                        Danuza Leão
 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Quem é o seu Amante?


" Muitas pessoas têm um amante e outras gostariam de ter um.
Há também as que não têm, e as que tinham e perderam".
Geralmente, são essas últimas que vem ao meu consultório, para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insônia, apatia, pessimismo, crises de choro, dores etc.
Elas me contam que suas vidas transcorrem de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar seu tempo livre.
Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente perdendo a esperança.
Antes de me contarem tudo isto, elas já haviam visitado outros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme:
"Depressão", além da inevitável receita do anti-depressivo do momento.
Assim, após escutá-las atentamente, eu lhes digo que não precisam de nenhum anti-depressivo; digo-lhes que precisam de um AMANTE!!!

É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem meu conselho.
Há as que pensam: "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa dessas"?!
Há também as que, chocadas e escandalizadas, se despedem e não voltam nunca mais.
Aquelas, porém, que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico o seguinte:"AMANTE" é aquilo que nos "apaixona", é o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono, é também aquilo que, às vezes, nosimpede de dormir.

O nosso "AMANTE "é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta.
É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.
Às vezes encontramos o nosso "AMANTE" em nosso parceiro, outras, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis.

Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura,
na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo ou no prazer obsessivo do passatempo predileto....

 
Enfim, é "alguém!" ou "algo" que nos faz "namorar a vida" e nos afasta do triste destino de "ir levando"!..


E o que é "ir levando"?
Ir levando é ter medo de viver. É o vigiar a forma como os outros vivem, é o se deixar dominar pela pressão, perambular por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastar-se do que é gratificante, observar decepcionado cada ruga nova que o espelho mostra, é se aborrecer com o calor ou com o frio, com a umidade, com o sol ou com a chuva.
Ir levando é adiar a possibilidade de desfrutar o hoje, fingindo se contentar com a incerta e frágil ilusão, de que talvez possamos realizar algo amanhã*.

Por favor, não se contente com "ir levando"; procure um amante, seja também um amante e um protagonista... DA SUA VIDA!
Acredite: O trágico não é morrer, afinal a morte tem boa memória, e nunca se esqueceu de ninguém.
O trágico é desistir de viver... Por isso, e sem mais delongas, procure um amante ...
 
A psicologia após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental:
"PARA ESTAR SATISFEITA(O), ATIVA(O) E SENTIR-SE JOVEM E FELIZ, É PRECISO NAMORAR A VIDA".
                   (Jorge Bucay - Psicólogo e psiquiatra)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

ISSO TAMBÉM PASSA!



Chico Xavier costumava ter em cima da sua cama uma placa escrita: ISSO TAMBÉM PASSA!

Então perguntaram a ele o porquê disso, e ele disse que era para que quando estivesse passando por momentos difíceis, se lembrar de que eles iriam embora, iriam passar e que ele estava vivendo isso por algum motivo. Mas essa placa também era para lembrá-lo de que quando estivesse muito feliz, não deveria deixar tudo para trás e se deixar levar, porque esses momentos também iriam passar e momentos difíceis viriam novamente.
É
exatamente disso que a vida é feita, "MOMENTOS." Momentos que temos que passar, sendo bons ou não para a nossa própria aprendizagem, nunca esquecendo do mais importante: Nada nessa vida é por acaso!

"Cada escolha, por menor que seja, é uma forma de semente que lançamos sobre o canteiro que somos. Um dia, tudo o que agora silenciosamente plantamos, ou deixamos plantar em nossa plantação que poderá ser vista de longe...

Para cada dia, o seu empenho. A sabedoria bíblica nos confirma isso, quando nos diz que “debaixo do céu há um tempo para cada coisa”!

Hoje, neste tempo que é eu, o futuro está sendo plantado. As escolhas que você procura, os amigos que você cultiva, as leituras que você faz, os valores que você cobra, os amores que você ama, tudo será determinante para a colheita futura.

Felicidade talvez seja isso: alegria de recolher da terra que somos, frutos que sejam agradáveis aos olhos!

Infelicidade, talvez seja o contrário.

O que não
podemos perder de vista é que não há vida real fora do cultivo. Sempre é tempo de lançar sementes... Sempre é tempo de recolher frutos. Tudo ao mesmo tempo. Sementes de ontem, frutos de hoje, Sementes de hoje, frutos de amanhã.


Por isso, não
perca de vista o que você anda escolhendo para deixar cair na sua terra. Cuidado com os semeadores que não lhe amam. Eles têm o poder de estragar o resultado de muitas coisas.

Cuidado com os semeadores que você
conhece. Há m
uita maldade escondida em sorrisos sedutores...

Cuidado com aqueles que deixam cair qualquer coisa sobre você, afinal, você merece muito mais que qualquer coisa.

Cuidado com os amores passageiros... eles costumam deixar marcas dolorosas que não
passam...

Cuidado com os invasores do seu corpo... eles não
costumam voltar para ajudar a consertar a desordem...

Cuidado com os olhares de quem não
sabe lhe amar... eles costumam lhe fazer esquecer que você vale a pena...

Cuidado com as palavras mentirosas que esparramam por aí... elas costumam estragar o nosso referencial da verdade...

Cuidado com as vozes que insistem em lhe recordar os seus defeitos... elas costumam prejudicar a sua visão
sobre si mesmo.

Não
tenha medo de se olhar no espelho. É nessa cara que você tem que Deus resolveu expressar mais uma vez, o amor que Ele tem pelo mundo.

Não
desanime de você, ainda que a colheita de hoje não
seja muito feliz.

Não
coloque um ponto final nas suas esperanças. Ainda há muito que fazer, ainda há muito que plantar, e o que amar nessa vida.

Ao invés de ficar parado no que você fez de errado, olhe para frente, e veja o que ainda pode ser feito...

A vida ainda não
terminou. E já dizia o poeta "que os sonhos não
envelhecem..."

Vá em frente. Sorriso no rosto e firmeza nas decisões.

(Padre F
ábi
o de Melo)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ

1.       A URGÊNCIA DE UM PROJETO SÓLIDO DE INICIAÇÃO CRISTÃ

Vivemos em um tempo de mudanças velozes que traz a todos a sensação de relatividade da vida, de caducidade de todo conhecimento dito definitivo, de instabilidades quanto a valores e princípios existenciais e éticos, de incertezas quando ao futuro da humanidade e do planeta. A globalização em todas as suas dimensões, o avanço desenfreado da técnica e do mundo virtual, as pesquisas e descobertas científicas, o descontentamento em relação aos sistemas de governo e econômicos, as grandes convulsões sociais, se, por um lado, trazem um forte apelo ao ser humano para que assuma e se assenhoreie de sua história, acredite no seu potencial e conquiste um mundo melhor, por outro lado coloca este mesmo ser humano num chão de inseguranças e confusão. O medo, a decepção com as lideranças, a desconfiança em relação a tudo o que se apresente como definitivo e absoluto, a fragmentação da realidade em detrimento da visão de um todo unificado, são algumas das atuais características que marcam o homem “líquido”, que vive numa época “líquida”, carente de sentido e em busca de realização: “a era da modernidade líquida em que vivemos – um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível – é fatal para nossa capacidade de amar, seja esse amor direcionado ao próximo, a nosso parceiro ou a nós mesmos”.[1]

Neste contexto complexo e plural situam-se os adultos e crianças, “ovelhas sem pastor”[2], aos quais o Senhor continua enviando os seus discípulos missionários: “Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel”[3]. São eles, principalmente os adultos, os interlocutores e sujeitos da evangelização hoje. São eles que, junto aos inúmeros questionamentos por conta do momento histórico que vivemos, querem também respostas a questões profundas relativas à sua sede de sentido e realização para a vida. São eles que buscam, muitas vezes até sem saber que o fazem, um encontro com o Único capaz de lhes preencher o coração, como um dia Ele fez à Samaritana, ao dizer: “Sou eu, que estou falando com você”[4]. “Essa busca, a pergunta por Deus, está em todos nós. Muitos são os que andam inquietos pelo mundo, descontentes com propostas que ainda não conquistaram sua mente e seu coração; há também outros, que de certa forma perderam de vista o Transcendente, ao se deixar levar pelo imediatismo, pelo materialismo, e pelas muitas seduções de uma sociedade que valoriza outras conquistas...Mas, também estes poderão descobrir essa necessidade básica, bem humana, de buscar a fonte do mistério da sua própria existência”.[5]

Grande parte dessas pessoas não foi, de fato, evangelizada, ainda que já tenha ouvido falar de Jesus. A maioria recebeu um “verniz”[6] de Evangelho, que não lhe chegou ao cerne, por conta de uma catequese intelectualizada e moralista, com pouca ou nenhuma repercussão na vida cotidiana. Poucos cresceram em famílias cristãs praticantes. A minoria encontrou uma comunidade acolhedora e formadora na fé, onde pudesse amadurecer na fé.  Na visão de muitos, a Igreja tornou-se um grande pronto socorro, ao qual se recorre na hora de uma aflição ou necessidade, tendo o padre como agente credenciado para lhes oferecer remédio e cura imediata, através de um sacramento visto de maneira mágica, de uma bênção ou de uma graça a ser negociada com seu santo predileto. Sem contar aqueles que se desencantaram com a Instituição ou, por vários motivos, se afastaram (ou foram afastados!) dela...Um grande leque[7] se abre, apontando para tantas direções de adultos que, ainda que não peçam, precisam de uma resposta eficaz e séria da Igreja, que supere em muito a maquiagem dos “cursinhos intensivos” para Sacramentos: “isto não se faz num cursinho rápido e nem mesmo numa catequese isolada de outros aspectos da vida eclesial. Não se trata de ‘aprender coisas’, mas de adesão consciente  a um projeto de vida”.[8]

Faz-se necessário, portanto, um projeto sólido e bem estruturado de (re)iniciação à vida cristã, que acolha os desafios do tempo presente, recupere a rica experiência da tradição da nossa Igreja – especialmente dos primeiros séculos!- e atualize a memória e a experiência de Jesus Cristo mais do que às demandas, às necessidades dos homens e mulheres de hoje.


2.       O MODELO CATECUMENAL
Nesses quase dois mil anos de missão, a Igreja foi tentando se adaptar as exigências de cada época, ora com mais eficácia, ora com parcos resultados. O catecumenato[9], processo catequético de iniciação dos primeiros séculos, foi uma maneira muito criativa encontrada para responder às urgências da época, tornando-se “verdadeira escola de fé”[10]. Hoje ele é proposto pela Igreja como modelo, visto apresentar elementos muito importantes, que, adaptados à nossa realidade, podem contribuir eficazmente na elaboração de itinerários próprios para cada contexto, para repensarmos o processo evangelizador e catequético atual. É importante  ressaltar que a ideia de “modelo” apresentado pelos Diretórios Geral e Nacional de Catequese, bem como por outros documentos, não significa que se deva impor a mesma metodologia dos primeiros séculos, mas que o catecumenato antigo sirva antes de inspiração, leve-nos a uma mística, a um estilo iniciático de encontro e introdução da pessoa no mistério de Cristo, para que alcance a maturidade da fé e possa dizer, como concluiu o apóstolo Paulo: “Já não sou eu mais que vivo; é Cristo que vive em mim!”[11]. A proposta do estudo 97 da CNBB parece ser sensata ao alertar que o modelo catecumenal  “não é um projeto fechado, para ser seguido ao pé da letra em todas as situações. Há muita possibilidade – e certamente haverá necessidade – de adaptações, soluções locais criativas, maneiras de conviver com eventuais carências”.[12]

3.       A INSPIRAÇÃO CATECUMENAL
Por isso é preferível falar de uma (re)iniciação com “inspiração catecumenal”[13], que contemple os elementos essenciais do catecumenato primitivo como iluminadores de novos itinerários ou mesmo de adaptação das experiências já bastante ricas que temos, mas que podem assumir um estilo mais iniciático.

Mas, que elementos são esses? O que podemos aprender com as primeiras comunidades e experiências cristãs? Em que o catecumenato primitivo pode nos inspirar? Estas perguntas não têm respostas acabadas. A reflexão atual da Igreja, também no Brasil, tem apontado pistas bastante interessantes para iluminarmos nossa catequese, especialmente com adultos, aos quais todos os esforços devem ser envidados, visto serem eles os destinatários prioritários da ação evangelizadora da Igreja.  Podemos citar alguns desses elementos:

a)      Passagem de uma catequese sacramentalizadora para uma catequese evangelizadora

Enquanto insistirmos numa catequese com finalidade somente sacramental, “para” a primeira Eucaristia ou Crisma, ou nos tradicionais e inócuos “cursos” de batismo e para noivos, não daremos conta de uma realidade muito mais ampla que nos desafia e questiona: uma multidão de pessoas que busca e necessita de um encontro com a Boa Notícia da Vida e do amor, de uma experiência com o Cristo que possa ser-lhes suporte durante a vida inteira, numa fé madura e comprometida com o Reino. Se o foco for apenas sacramental, a maior parte das pessoas continuará à margem da vida eclesial, por não se enquadrar em nossos critérios e “pacotes” canônicos e pastorais! Isso não significa que os Sacramentos não tenham o seu lugar, mas este não será o de meta ou ponto de chegada![14] A descoberta da pessoa de Jesus, a acolhida e o convívio com os irmãos na comunidade, os apelos fortes que brotam da Palavra para uma vivência coerente com a fé, o testemunho dos cristãos comprometidos com o Reino contagiarão as pessoas em processo de iniciação, de modo que os sacramentos serão buscados na hora certa - a hora da consciência de cada pessoa! - e vivenciados não como conveniência, mas como adesão ao projeto de Jesus Cristo. “O sacramento é uma consequência de uma adesão à proposta do Reino, vivida na Igreja. Nosso processo de crescimento na fé é permanente; os sacramentos alimentam esse processo e têm consequências na vida”.[15]

b)      Cristo como centro e referência da catequese

Apresentar a pessoa de Jesus, sem maquiagem e fundamentalismos, como sentido máximo para a vida, muito além da Instituição, é fundamental! Proporcionar o encontro com Ele e a experiência do seu amor...Isso exige uma catequese mais “enxuta”, voltada para o essencial, despojada de tantos conteúdos e temas que podem ser compreendidos ao longo de toda a vida cristã. É importante ter a clareza de que não é necessário “congestionar” a catequese inicial, seja com crianças ou adultos, com uma quantidade exagerada e sem prioridade de conteúdos. Supõe-se que a catequese permanente seja um caminho até o final da vida, no qual um conhecimento sistemático e progressivo das questões relativas à fé vá acontecendo paulatinamente. “Recordamos que o caminho de formação do cristão, na tradição mais antiga da Igreja, ‘teve sempre caráter de experiência, na qual era determinante o encontro vivo e persuasivo com Cristo, anunciado por autênticas testemunhas’”.[16] Cabe-nos, ainda, alertar para o risco de experiências equivocadas propostas por setores mais intimistas e alienados da própria Igreja, que dissolvem a espiritualidade cristã na busca de um Cristo etéreo e descomprometido com a realidade, experiências estas que não contemplam o Jesus de Nazaré, o Cristo histórico, Deus que assumiu nossa carne e armou sua tenda entre nós.[17]

c)       O papel fundamental da comunidade cristã

A comunidade está ausente dos nossos atuais itinerários catequéticos. Não podemos nos esquecer de que ela é fonte, conteúdo, agente e ponto de chegada do cristão iniciado e maturo no testemunho cristão[18]. É ela que acolhe, motiva, ajuda e testemunha a fé no cotidiano dos iniciandos em processo de educação da fé. A tarefa iniciática não é responsabilidade somente do catequista, mas de toda a comunidade cristã, a começar pelas suas lideranças. “Todos os membros da comunidade paroquial são responsáveis pela evangelização dos homens e mulheres em cada ambiente”.[19]  Formar comunidades acolhedoras e comprometidas com o Reino é condição indispensável para que todo itinerário de iniciação dê frutos. “Onde há uma verdadeira comunidade cristã, ela se torna uma fonte viva da catequese, pois a fé não é uma teoria, mas uma realidade vivida pelos membros da comunidade”.[20] Para que a Iniciação Cristã não se torne uma pastoral a mais, entre tantas outras, mas uma ação conjunta das forças vidas da Paróquia, faz-se necessária uma Pastoral Orgânica[21] que reflita, planeje e assuma a coordenação e avaliação de todo o processo.

d)      A interação Catequese-Liturgia[22]

No início do cristianismo não havia compêndios e livros catequéticos. Rezava-se o que se acreditava. Acreditava-se no que se rezava.  A liturgia era e precisa continuar sendo formadora e educativa do cristão, ainda que sua natureza seja celebrativa e não discursiva. O jeito de celebrar, os elementos simbólicos e rituais, a Palavra e boas homilias formam eficazmente o cristão. “Há uma relação íntima entre a fé, a celebração e a vida. O mistério de Cristo anunciado na catequese é o mesmo que é celebrado na liturgia para ser vivido”.[23] A pessoa em processo de iniciação cresce com um olho no altar e outro na vida. A liturgia ajuda a guardar e assumir profundamente o que foi descoberto na caminhada. Assim, as celebrações têm por finalidade “gravar nos corações dos catecúmenos o ensinamento recebido quanto aos mistérios de Cristo e a maneira de viver o que daí decorre (...); levá-los a saborear as formas e as vias de oração; introduzi-los pouco a pouco na liturgia de toda comunidade”.[24]

Isso requer uma catequese mistagógica. Mistagogia  vem de duas palavras gregas: 'myst ' e 'agogein'. É uma palavra que indica uma prática muito antiga, bastante valorizada atualmente e significa guiar, conduzir para dentro do mistério. Está intimamente ligada à ação ritual, que nos insere na vida do Cristo, nos converte e nos mobiliza à transformação da nossa própria vida. Aí entram a familiaridade com os símbolos, os ritos, com a experiência orante,  com a Sagrada Escritura e o aprofundamento teológico, que culmina no encontro pessoal com Jesus Cristo, no momento atual, existencial de nossa vida pessoal, comunitária, social. “A mistagogia nos leva a uma conversão da interioridade, uma adesão existencial à pessoa de Jesus Cristo e não apenas intelectual ou moral. E esta adesão nos leva a uma atitude ética, um modo de vida de acordo com o evangelho de Jesus Cristo.”[25]

e)      O acompanhamento personalizado

 Ainda que demande um número maior de pessoas disponíveis para a tarefa catequética, vale a pena investir num acompanhamento personalizado dos iniciandos, visto que cada um tem um ritmo, uma experiência de vida e uma cosmovisão diferente do outro. “O povo que a Igreja tem a missão de acolher e servir é uma multidão, com rostos variados que precisam ser reconhecidos, identificados, personalizados”.[26] Atente-se, entretanto, para não particularizar radicalmente a caminhada, perdendo-se, assim, o vínculo essencial com a comunidade. Cuidado com catequeses desvinculadas da caminhada comunitária, das celebrações litúrgicas, de cunho individualista ou muito particularizada em grupos e movimentos. Por priorizar os adultos, o acompanhamento se complexifica, pois a demanda adulta e as indagações que trazem são mais exigentes e muitas vezes requerem atenção individualizada e muita acolhida por parte do  iniciador/catequista, pois “quem chega à idade adulta com essas indagações precisa de mais do que uma síntese doutrinal. Traz toda uma vida, cheia de experiências, perplexidades, alegrias e decepções. E aí não basta estudar o cristianismo. O adulto cheio de perguntas quer descobrir sentido na vida. Nos seus relacionamentos, no mistério de Deus...”.[27]

f)       O envolvimento das famílias do iniciando

É na família que o catequizando convive boa parte de seu tempo e é lá que preferencialmente se dará o testemunho cristão. “A própria vida familiar deve tornar-se um itinerário de educação da fé e uma escola de vida cristã. O futuro da evangelização depende em grande parte da Igreja doméstica.”[28] Descobrir meios para envolver e atingir a família daqueles que são acompanhados no processo de iniciação é de grande importância, principalmente em nosso tempo em que nos deparamos co novas configurações familiares. Urge que a pastoral orgânica assuma o acompanhamento das famílias do iniciando, de tal modo que ela também cresça na mesma proporção e possa ser sementeira fértil, onde se desenvolvam cristãos convictos e coerentes com sua fé. Entendendo a Iniciação Cristã como essencialmente missionária, não dá para ficar entre as quatro paredes da igreja aguardando que venham a nós as famílias. Cumpre-nos imbuir-nos da “mística do Bom Pastor”, que hoje certamente deixaria uma ovelha no redil para ir em busca de noventa e nove que estão dispersas e feridas pelos caminhos da história.




g)      Catequese a partir da vida e para a vida do iniciando

O ponto de partida da catequese não é o livro, nem as definições teológicas, mas sim a vida do iniciando. O acompanhamento personalizado e o bom senso do iniciador/catequista permitem uma consideração do iniciando a partir de seu contexto, de sua realidade social, econômica, política, cultural, religiosa, existencial... “A vida, a história, as experiências, os sentimentos, os sonhos, os projetos, os medos das pessoas devem ser considerados, escutados, valorizados em todo processo evangelizador, especialmente na Iniciação à Vida Cristã. Não há como viver a vida cristã e anunciar o Evangelho sem esta realidade, pois é nela que Deus se manifesta”.[29] Se o processo de iniciação não incidir na vida, não transformá-la, se envidarão muitos esforços por quase nada!

h)      Processo gradual e permanente

O processo catequético precisa respeitar o desenvolvimento natural da pessoa, em seus aspectos essenciais. Absorver, introjetar e assumir certos conteúdos fortes e relevantes demanda tempo, paciência, construção diária, foco no essencial. Por isso fala-se de catequese permanente, desde o útero materno até a hora da morte! Acolhida e sustentação do cristão no caminho de Jesus Cristo são duas dimensões que não podem ser esquecidas por nenhum itinerário de iniciação e evangelização. Mais uma vez apontamos para a necessidade de uma pastoral orgânica, centrada nos objetivos da iniciação, que proporcione ao caminhante possibilidades de se reconhecer membro da comunidade continuamente alimentado e sustentado por ela, que siga feliz o seu caminho, como aquele servo da rainha da Etiópia, evangelizado e batizado por Felipe.[30] Isso requer a sensibilidade da comunidade e do iniciador/catequista para que respeite o tempo, o “kairós” de cada iniciando, sem pressões para que tome decisões, receba sacramentos ou assuma trabalhos na comunidade. Esse elemento também reforça a ideia de uma catequese mais personalizada, que acompanhe melhor a diversidade do ritmo de crescimento de cada um, sustente itinerários diversificados conforme as várias faixas etárias dos iniciandos e  conheça as suas dificuldades no discernimento e adesão ao projeto de Jesus.

i)        O lugar essencial da Palavra de Deus

A Palavra de Deus, escrita na Bíblia e na vida, precisa ocupar um lugar de destaque na catequese, pois o seu conhecimento e a sua meditação ajudam o iniciando a perceber a história de salvação que continua hoje e a presença constante do Deus na vida na sua história pessoal, com força de libertação. Inseridos na mais antiga e rica tradição cristã, cabe-nos salientar a importância da Palavra de Deus como despertadora da fé e mobilizadora de conversão: "Logo, a fé provém da pregação e a pregação se exerce em razão da palavra de Cristo”[31]. Uma catequese reducionista e uma preocupação extremada com as espécies eucarísticas são responsáveis pela pouco atenção à Palavra, não reparando na veneração equiparada que o Concílio Vaticano II destacou entre as duas modalidades da mesma e única presença do Cristo, Pão do Céu a alimentar os fiéis.[32]

j)        A unidade teológica dos Sacramentos de Iniciação Cristã[33]

Nos primeiros séculos do Cristianismo, quem queria tornar-se cristão fazia uma caminhada séria de iniciação, permeada por ritos, encontros humanos, aprofundamento da Palavra, inserção na comunidade e testemunho na vida cotidiana. E os sacramentos de iniciação eram celebrados numa festa só, na solene liturgia da Vigília Pascal. Historicamente, isso muda com a obrigatoriedade do cristianismo pelo Império Romano. A unidade sacramental se fragmenta, e até hoje os sacramentos do Batismo, Crisma e Eucaristia são celebrados e, infelizmente, entendidos separadamente. Se cronologicamente dificilmente se conseguirá uma unidade dos Sacramentos de Iniciação, importa que o iniciando perceba a unidade teológica que há entre eles, não fragmentando as vivências sacramentais ou isolando um do outro, sob pena de vincular-se efetivamente a nenhum deles e empobrecer a vida cristã. “A mútua referência dos três sacramentos é pouco matizada nos livros de catequese. É comum encontrarmos catequistas que não sabem relacionar o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia. É justamente esse dinamismo referencial que garante a unicidade de todo o processo, fundamenta a identidade do ser cristão e projeta-a como tarefa pascal a ser cumprida ao longo de toda a existência do fiel”.[34]

k)       Compromisso Sóciotransformador

O princípio de interação Fé-Vida, fundamental característica da Catequese Renovada[35], na mais fiel tradição da Igreja latino-americana, é princípio que deve iluminar todo itinerário de iniciação cristã, garantindo que a opção preferencial de Jesus Cristo pelos pobres e marginalizados seja sempre atualizada e assumida no testemunho do cristão amadurecido e implicado com sua fé. É na vivência do compromisso sóciotransformador da sua realidade que o iniciando ( e iniciado!) vai dando sinais de adesão a Jesus Cristo e ao seu projeto de justiça, vida e fraternidade, especialmente em nosso continente  marcado pela exclusão social e desrespeito  à vida de tantos irmãos empobrecidos, muitos na linha de miséria.  “O justíssimo desejo de levar a sério o processo de iniciação e de ter cristãos realmente comprometidos, conscientes e imersos nas grandezas do mistério da fé não pode transformar a Igreja numa sociedade excludente que não seria capaz de acolher todos os que precisam e têm direito de se sentir amados por Deus.”[36] Ênfase seja dada à defesa da qualidade de vida no planeta e a ações transformadoras que garantam ao ser humano a dignidade e a vida em plenitude.

l)        Educação para o Ecumenismo e para o Diálogo Religioso

Em um mundo globalizado e plural, no qual a diversidade é cada vez mais entendida como valor e riqueza, é de grande importância que o cristão maduro na fé assuma atitudes de respeito e valorização das diferenças individuais e de grupos, especialmente religiosos. O processo de iniciação deve colaborar na educação do cristão para que este saiba acolher o seu próximo sem preconceitos, abrir-se ao diálogo religioso e a perceber as sementes do Reino de Deus espalhadas em todos os povos e culturas. Consciente de sua fé católica, mas sem fundamentalismos ou proselitismos, a pessoa que trilha o caminho da iniciação cristã é o homem/mulher da paz, do entendimento e, sobretudo, do amor que a todos aproxima, muito além das divisões sociológicas ou culturais da religião ou de qualquer outro partidarismo. “A convivência ecumênica é parte da experiência de ser comunidade com os outros discípulos de Jesus; a catequese precisa educar para essa convivência, esclarecendo o que já nos une e ajudando a dialogar com afetuosa serenidade sobre o que ainda divide as Igrejas”.[37]

4.       Conclusão

Pentecostes acontece toda vez que a Igreja acolhe, com renovado entusiasmo e ardor missionário, as inspirações do Espírito, que “sopra onde quer”[38] e quando quer, e “renova a face”[39] da Igreja e do mundo. Retomando um pensamento inspiradíssimo de João XXIII a respeito de seu empenho pela realização do Concílio Vaticano II, podemos fazer ecoar também hoje, quando o mesmo Espírito nos sugere mudanças, esta certeza: “Não é o Evangelho que muda; nós que começamos a compreendê-lo melhor. Chegou o momento de reconhecer os sinais dos tempos, de aproveitar a oportunidade e olhar longe”. É hora de olharmos para um horizonte que nos encanta, ao mesmo tempo em que nos atrai. Ele nos encanta, pois nos faz vislumbrar uma Igreja mais madura e mais fiel ao projeto de Jesus.  Atrai-nos pela imperiosa tarefa que temos que assumir, jamais como um peso, mas sim com paixão, gosto, afeto, arte e alegria...
                                 


Pe. Vanildo de Paiva





[1] BAUMAN, Z. Amor Líquido. ZAHAR: Rio de Janeiro, 2003
[2] cf. Mc 6,34
[3] cf. Mc  10,5-6
[4] Jo 4,26
[5] Estudo 97 da CNBB, n. 04
[6] Cf. Diretório Nacional de Catequese, n. 37
[7] O Estudo 97 apresenta, no número 112, uma relação bastante interessante da diversa situação religiosa de nosso povo
[8]  Estudo 97 da CNBB, n. 08
[9] Cf. Estudo 97 da CNBB, n. 71-89
[10] cf. Diretório Geral da Catequese, n. 130
[11] Gl 2,19
[12] Idem, n. 159
[13] Cf. Diretório Nacional de Catequese, n. 35-50
[14] Cf. Estudo 97 da CNBB, n. 55-57
[15]  Diretório Nacional de Catequese, n. 50
[16] Documento de Aparecida, n. 290 – Grifo em negrito nosso
[17] Cf Jo 1,14
[18]  Cf. IV parte do Documento Catequese Renovada
[19] Documento de Aparecida, n. 171
[20]  Diretório Nacional de Catequese, n. 52
[21] Cf. Estudo 97 da CNBB, n. 28 e 146-147
[22] Uma boa referência para uma compreensão mais ampla dessa interação pode ser encontrada no livro “Catequese e Liturgia: duas faces do mesmo Mistério, de minha autoria. Paulus, 2007
[23]  Diretório Nacional de Catequese, n. 119
[24]  RICA – Ritual de Iniciação Cristã de Adultos, n. 106
[25]  Ione Buyst no blog na Dimensão Bíblico-catequética: www.http://catequeseebiblia.blogspot.com, acessado em 26.03.2011
[26]  Estudo 97 da CNBB, n. 110 (grifo em negrito nosso)
[27]  Idem, n. 08
[28] Diretório Nacional de catequese. n. 238
[29]  Estudo 97 da CNBB, n. 109
[30] Cf. At 8,26-39
[31] Rm 10,17
[32] Cf. DV n. 21; VD n. 55-56
[33] A esse respeito, há um interessante capítulo (3º) no livro: Catequese com estilo catecumenal, de Antônio Francisco Lelo. Paulinas: 2008
[34]  Idem, p. 40
[35] Documento Catequese Renovada, n. 113
[36]  Estudo 97 da CNBB, n. 98
[37]  Diretório Nacional de Catequese, n. 219
[38] Cf. Jo 3,8
[39] Cf. Sl 103,30