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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

SINDROME DE VÍTIMA: a incapacidade de aceitar a vida como ela é....

                                                                            Antônio Roberto Soares, F.R.C.

Todo o comportamento humano decorre da concepção que nós temos da realidade e nessa realidade existem dois pólos bastante distintos: aquilo que nós somos e aquilo que nos cerca. Nossa postura na vida depende do modo como estabelecemos essa relação: a relação entre nós e os outros, entre nós e os membros da nossa família, entre nós e outros membros da sociedade, entre nós e as coisas, entre nós e o trabalho, entre nós e a realidade externa. A nossa maneira de sentir e de viver depende de como cada um de nós interioriza a relação entre essas duas partes da realidade. E uma das formas que aprendemos de nos relacionarmos com os outros é a postura que designamos por vítima.

O que é a vítima? A vítima é a pessoa que se sente inferior à realidade, é a pessoa que se sente esmagada pelo mundo externo, é a pessoa que se sente desgraçada face aos acontecimentos, é aquela que se acostuma a ver a realidade apenas em seus aspectos negativos. Ela sempre sabe o que não deve, o que não pode, o que não dá certo. Ela consegue ver apenas a sombra da realidade, paralelo a uma incrível capacidade para diagnosticar os problemas existentes. Há nela uma incapacidade estrutural de procurar o caminho das soluções e, neste sentido, ela transfere os seus problemas para os outros; transfere para as circunstâncias, para o mundo exterior, a responsabilidade do que está lhe acontecendo. Esta é a postura da justificativa. Justificar-se é o sinal de que não queremos mudar. Para não assumirmos o erro, justificamo-nos, ou seja, transformamos o que está errado em injusto e, de justificativa em justificativa, paralisamo-nos, impedimo-nos de crescer.

A vítima é incompetente na sua relação com o mundo externo. Enquanto colocarmos a responsabilidade total dos nossos problemas em outras pessoas e circunstâncias, tiraremos de nós mesmos a possibilidade de crescimento. Em vez disso, vamos procurar mudar as outras pessoas.

Este tipo de postura provém do sentimento de solidão. É quando não percebemos que somos responsáveis pela nossa própria vida, por seus altos e baixos, seu bem e seu mal, suas alegrias e tristezas; é quando a nossa felicidade se torna dependente da maneira como os outros agem. E como as pessoas não agem segundo nosso padrão, sentimo-nos infelizes e sofredores. Realmente, a melhor maneira de sermos infelizes é acreditarmos que é à outra pessoa que compete nos dar felicidade e, assim, mascaramos a nossa própria vida frente aos nossos problemas.

A postura de vítima é a máscara que usamos para não assumirmos a realidade difícil, quando ela se apresenta. É a falta de vontade de crescer, de mudar‚ escondida sob a capa da aparição externa. Essa é uma das maiores ilusões da nossa vida: desejarmos transferir para a realidade que não nos pertence, sobre a qual não possuímos nenhum controle, as deficiências da parte que nos cabe. Toda relação humana é bilateral: nós e a sociedade, nós e a família, nós e o que nos cerca. O maior mal que fazemos a nós próprios é usarmos as limitações de outras pessoas do nosso relacionamento para não aceitarmos a nossa própria parte negativa.

Assim, usamos o sistema como bode expiatório para a nossa acomodação no sofrimento.

A vítima é a pessoa que transformou sua vida numa grande reclamação. Seu modo de agir e de estar no mundo é sempre uma forma queixosa, opção que é mais cômoda do que fazer algo para resolver os problemas. A vítima usa o próprio sofrimento para controlar o sentimento alheio; ela se coloca como dominada, como fraca, para dominar o sentimento das outras pessoas.

O que mais caracteriza a vítima é a sua falta de vontade de crescer. Sofrendo de uma doença chamada perfeccionismo, que é a não aceitação dos erros humanos, a intolerância com a imperfeição humana, a vítima desiste do próprio crescimento. Ela se tortura com a idéia perfeccionista, com a imagem de como deveria ser, e tortura também os outros relativamente àquilo que as outras pessoas deveriam ser. Há na vítima uma tentativa de enquadrar o mundo no modelo ideal que ela própria criou, e sempre que temos um modelo ideal na cabeça é para evitarmos entrar em contato com a realidade.

A vítima não se relaciona com as pessoas aceitando-as como são, mas da maneira que ela gostaria que fossem. É comum querermos que os outros sejam aquilo que não estamos conseguindo ser, desejar que o filho, a mulher e o amigo sejam o que nós não somos.

Colocar-se como vítima é uma forma de se negar na relação humana. Por esta postura, não estamos presentes, não valemos nada, somos meros objetos da situação. Querendo ser o todo, colocamo-nos na situação de sermos nada. Todavia, as dificuldades e limitações do mundo externo são apenas um desafio ao nosso desenvolvimento, se assumirmos o nosso espaço e estivermos presentes.

Assim, quanto pior for um doente, tanto mais competente deve ser o médico; quanto pior for um aluno, mais competente deve ser o professor. Assim também, quanto pior for o sistema ou a sociedade que nos cerca, mais competentes devemos ser com pessoas que fazem parte desta sociedade; quanto pior for nosso filho, mais competentes devemos ser como pai ou mãe; quanto pior for a nossa mulher, mais competentes devemos ser como marido; quanto pior for nosso marido, mais competentes devemos ser como esposa, e assim por diante. Desta forma, colocamo-nos em posição de buscar o crescimento e tomamos a deficiência alheia como incentivo para nossas mudanças existenciais. Só podemos crescer naquilo que nós somos, naquilo que nos pertence.
. Todos nós temos parte da responsabilidade naquilo que está ocorrendo. Não raras vezes, atribuímos à sociedade atual, ao mundo, a causa de nossas atribulações e problemas. Talvez seja esta a mais comum das posturas da vítima: generalizar para não resolver.

Os problemas da nossa vida só podem ser resolvidos em concreto, em particular. Dizer, por exemplo, que somos pressionados pela sociedade a levar uma vida que não nos satisfaz, é colocar o problema de maneira insolúvel. Todavia, perguntar a nós mesmos quais são as pessoas que concretamente estão nos pressionando para fazer o que nos desagrada, pode ajudar a trazer uma solução. Só podemos lidar com a sociedade em termos concretos, palpáveis. Conforme nos relacionamos com cada pessoa, em cada lugar, em cada momento, estamos nos relacionando com a sociedade, porque cada pessoa específica, num determinado lugar e momento, é a sociedade para nós naquela hora. Generalizamos para não solucionarmos, e como tudo aquilo que nos acontece está vinculado à realidade, todas as vezes que quisermos encontrar desculpas para nós basta olhar a imperfeição externa.

Colocar-se como vítima é economizar coragem para assumir a limitação humana, é não querer entender que a morte antecede a vida, que a semente morre antes de nascer, que a noite antecede o dia.

A vítima transforma as dificuldades em conflito, a sua vida num beco sem saída. Ser vítima é querer fugir da realidade, do erro, da imperfeição, dos limites humanos. Todas as evidências da nossa vida demonstram que o erro existe, existe em nós, nos outros e no mundo. Neurótica é a pessoa que não quer ver o óbvio.
. Crê que se o mundo não fosse do jeito que é‚ se sua esposa não fosse do jeito que é‚ se seus filhos não fossem do jeito que são, se o seu marido fosse diferente, ela estaria bem, porque ela, a vítima, é boa, os outros é que têm deficiências, apenas os outros têm que mudar.

A esse jogo chama-se o "Jogo da Infelicidade". A vítima é uma pessoa que sofre e gosta de fazer os outros sofrerem com o sofrimento dela, é a pessoa que usa suas dificuldades físicas, afetivas, financeiras, conjugais, profissionais, não para crescer, mas para permanecer nelas e, a partir disso, fazer chantagem emocional com as outras pessoas.

A vítima é a pessoa que ainda não se perdoou por não ser perfeita e transformou o sofrimento num modo de ser, num modo de se relacionar com o mundo. É como se olhasse para a luz e dissesse: "Que pena que tenha a sombra...", é como se olhasse para a vida e dissesse: "Que pena que haja a morte...", é como se olhasse para o sim e dissesse: "Que pena que haja o não...". E se nega a admitir que a luz e a sombra são faces de uma mesma moeda, que a vida é feita de vales e de montanhas.

Não são as circunstâncias que nos oprimem, mas, sim, a maneira como nos posicionamos diante delas, porque nas mesmas circunstâncias em que uns procuram o caminho do crescimento, outros procuram o caminho da loucura, da alienação. As circunstâncias são as mesmas, o que muda é a disposição para o alvorecer e para o desabrochar, ou para murchar e fenecer."

terça-feira, 14 de setembro de 2010

ODE AO ENCONTRO

Quero que a poesia do “encontro” seja saboreada por todos!

Os plenos de sensibilidade compreenderão meu desejo:
Quero cantá-la... e que meu canto voe pelas asas do vento...
Que o vento seja forte. Só assim a poesia penetrará a alma do que escuta
Que o vento seja brisa. Só assim a canção, suavemente, convencerá o olhar mais distraído
Que o vento seja ponteiro. Só assim a música poetizada navegará por lados certeiros. E o que escuta saberá do Encontro
Que o vento seja água e a água vento. Nossa alma é água e vento...
Vento carteiro dos desejos. Água que cristaliza os olhares...azulejando a tarde do Encontro!
Quero garimpar a beleza do Encontro! Meu garimpo é mescla de cores... Arco Iris de sonho por longo tempo sonhado!
Meu Encontro tem linguagem própria e quase secreta, pois habita o mais profundo dos sentimentos: O amor! Esse que tem a melodia mais harmoniosa, afinada pela flauta-som da vida!
É o amor que fortifica e suaviza o vento. Dá a direção exata como uma bússola sintonizada pelas ondas da alegria!
É o amor que purifica a água e perfuma o vento!
Ah! Esse amor que aproxima. É provocador!
Instigante, ele contagia corpo e alma e emoção!
Abraço forte, terno, saudoso!
Minha ode chega ao momento exato de terminar
Quero o fim que beira ao encanto
Esse que nunca acaba!
Encanto que alimenta o desejo de poetizar um breve re-Encontro!

                                                                      Rita de Cássia Pereira Rezende

quinta-feira, 9 de setembro de 2010


INICIAÇÃO CRISTÃ: ESPERANÇA DE UMA IGREJA MAIS MADURA

“...até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da maldade dos homens e de seus artifícios enganadores. Mas, pela prática sincera da caridade, cresçamos em todos os sentidos, naquele que é a cabeça, Cristo”. (Ef 4,13-15)

Com essas palavras, o apóstolo Paulo chamava a atenção da comunidade de Éfeso a respeito do perigo de uma fé superficial, ingênua, infantil, e sem uma estrutura que pudesse dar ao cristão condições de ter uma identidade definida e de responder sempre com firmeza aos desafios de seu tempo. De fato , o cristão está no mundo como testemunha de Jesus, a modo de fermento na massa, de luz do mundo, como Ele próprio afirmou (cf. Mt 5,13), e é chamado constantemente a dar às pessoas as “razões de sua esperança” (1Pd 3,15).



Os tempos são outros. Alguns desafios se assemelham aos do primeiro século do cristianismo, e outros tantos são novos, reflexos de uma sociedade em contínua e acelerada mudança. A globalização da cultura, da economia, das constantes criações da ciência e da tecnologia, geram um cenário marcado pela insegurança, pela caducidade e superação constante das coisas, pela revisão e até esquecimento de tantos valores humanos e cristãos, pela submissão do ser humano às regras do mercado financeiro e da inculcada mentalidade do ter, do possuir, do descartar, do competir, do comprar, etc. Isso tudo requer da Igreja uma retomada daquilo que é essencial no cristianismo e gera uma preocupação com o modo como os cristãos devem se preparar para responder melhor a tanta questões complicadas que vão surgindo. Essa atitude de atenção constante aos sinais de cada época também já fora acenada por Jesus, quando dizia: "Não se coloca vinho novo em odres velhos; do contrário, os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem. Coloca-se, porém, o vinho novo em odres novos, e assim tanto um como outro se conservam". (Mt 9,17)



Em resumo, preocupa-nos a seguinte questão: que tipo de cristão dá conta de ser autêntica testemunha de Jesus no mundo de hoje? Qual a sua identidade? Certamente não será o cristão imaturo na fé! Daí a preocupação da Igreja com a chamada Iniciação à Vida Cristã, que se trata, basicamente, de repensar a formação do cristão a partir de um processo “experiencial” da pessoa de Jesus e de seu projeto de vida, disposto a seguir Jesus como seu discípulo missionário.



Fomos evangelizados por um modelo de Igreja trazido da Europa pelos colonizadores, com fortes nuances tridentinas. Os evangelizadores nos legaram tradições e definições doutrinárias fortemente marcadas pela piedade, pela reverência ao Sagrado, pelo medo de Deus, por um religião mais conceitual que mesmo testemunhal, na qual as devoções ocuparam grande espaço. Em algumas fases da nossa história latinoamaricana de fé cristã está se aproximou um pouco mais da radicalidade evangélica, do Jesus histórico, mas, na maioria das vezes, a religião foi vista como uma roupagem conveniente, sem muita preocupação com uma identidade cristã. É como dizia o papa Paulo VI, quando combatia uma evangelização a modo de verniz, que não atinge o cerne da vida do cristão.



E assim, de geração em geração, com catequeses muito superficiais e de cunho racional, o povo brasileiro, na sua maioria cristã, foi evangelizado, recebeu os sacramentos, criou uma “casca” religiosa. Aquelas pessoas que tiveram a graça de encontrar comunidades calorosas, padres e catequistas preocupados com uma catequese que interagisse fé e vida, conseguiram aprofundar sua fé e dar “sustância” ao seu modo de viver a religião no cotidiano. Mas, infelizmente, grande parte dos católicos precisam ser re-evangelizados, como lembraram os bispos na Conferência em Aparecida, no. 287: “ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo e convidando-as para o seu seguimento, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora”.



Jesus abençoava as crianças e evangelizava os adultos. Nossa catequese inverteu esse processo, de tal modo que hoje temos uma defasagem imensa na qualidade de nossos adultos que, por sua vez, não são capazes de evangelizar os pequenos. Veja-se, por exemplo, quanta dificuldade tem os pais na educação da fé de seus filhos e quantos “terceirizam” essa sua obrigação aos catequistas!



A proposta da Iniciação Cristã é criar condições em todas as nossas comunidades de ajudar cada adulto batizado a ter uma autêntica identidade cristã. Por identidade entendemos aquilo que possibilita a alguém dizer quem é, em que acredita, como é sua vida, que valores possui, que testemunho de fé e capaz de dar. É repensar o jeito de fazer catequese com os pequenos e, sobretudo com adultos, passando de vez com uma catequese de “aprender coisas” para uma catequese de seguimento, compromisso com Jesus. É hora de por ponto final nos cursinhos rápidos para os sacramentos e em outras formas de “ensino” cristão isolado da vida de comunidade e do testemunho cristão no meio do mundo, sob pena de perdermos a força do fermento cristão e o sabor do sal tão necessário a este mundo insosso demais!

FILOSOFIA, ENCANTAMENTO E CAMINHO

   O que se pretende neste ensaio é abrir perspectivas que despertem o gosto pela filosofia, sem gerar no leitor, especialmente no iniciante, um ranço de pensar sua realidade, pois a filosofia causa espanto a muita gente.    Para boa parte das pessoas, trata-se de assunto especializado e, por isso mesmo, desinteressante.    Juntamente com a recusa ao conhecimento da filosofia, de seus mecanismos e história, recusa-se também a atitude filosófica, contrariando uma verdade pouco tomada a sério: `Jamais se delega a função de pensar` (Alain). As consequências do não exercício de pensar; especialmente de omissão crítica diante da vida, nos são bem conhecidas.

POEMA PARA REFLEXÃO

  "Não sei se a vida é curta
ou longa para nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve,
palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia,
lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
 mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar.
 Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

                                                                  Cora Coralina

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA PARA CATEQUISTAS

CATEQUESE E LITURGIA: DUAS FACES DO MESMO MISTÉRIO


   A celebração do Mistério Pascal de Jesus Cristo é o coração do cristianismo. A explicitação da sua grandeza e relevância em nossa vida é a grande tarefa tanto da catequese, quanto da liturgia. Ambas, por caminhos diversos e essencialmente complementares, auxiliam o cristão no amadurecimento da fé e na sua tradução concreta, frente aos desafios do cotidiano.
   A catequese, sem a liturgia, esvazia-se do Mistério e reduz-se a um amontoado de ensinamentos e teorias sobre Deus e a Igreja, sem qualquer significado mais profundo para a vida. Por outro lado, a liturgia, sem a catequese, é carente do sentido do conteúdo da fé, que se consolida no aprofundamento da mensagem cristã, o que a catequese assume como missão própria.
    O livro aponta um caminho interessante de interação entre essas duas principais dimensões da vida cristã. Percorrendo a história da nossa fé, resgata a profunda unidade entre catequese e liturgia na experiência do judaísmo, de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, mostra como elas se distanciaram ao longo da história, e indica meios para uma urgente e necessária reaproximação delas. E não fica só na teoria! É um livro prático, com celebrações catequéticas e muitas dicas bem concretas para vivenciar e rezar a caminhada na catequese. É excelente para catequistas e agentes da pastoral litúrgica.