INICIAÇÃO CRISTÃ: ESPERANÇA DE UMA IGREJA MAIS MADURA
“...até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da maldade dos homens e de seus artifícios enganadores. Mas, pela prática sincera da caridade, cresçamos em todos os sentidos, naquele que é a cabeça, Cristo”. (Ef 4,13-15)
Com essas palavras, o apóstolo Paulo chamava a atenção da comunidade de Éfeso a respeito do perigo de uma fé superficial, ingênua, infantil, e sem uma estrutura que pudesse dar ao cristão condições de ter uma identidade definida e de responder sempre com firmeza aos desafios de seu tempo. De fato , o cristão está no mundo como testemunha de Jesus, a modo de fermento na massa, de luz do mundo, como Ele próprio afirmou (cf. Mt 5,13), e é chamado constantemente a dar às pessoas as “razões de sua esperança” (1Pd 3,15).
Os tempos são outros. Alguns desafios se assemelham aos do primeiro século do cristianismo, e outros tantos são novos, reflexos de uma sociedade em contínua e acelerada mudança. A globalização da cultura, da economia, das constantes criações da ciência e da tecnologia, geram um cenário marcado pela insegurança, pela caducidade e superação constante das coisas, pela revisão e até esquecimento de tantos valores humanos e cristãos, pela submissão do ser humano às regras do mercado financeiro e da inculcada mentalidade do ter, do possuir, do descartar, do competir, do comprar, etc. Isso tudo requer da Igreja uma retomada daquilo que é essencial no cristianismo e gera uma preocupação com o modo como os cristãos devem se preparar para responder melhor a tanta questões complicadas que vão surgindo. Essa atitude de atenção constante aos sinais de cada época também já fora acenada por Jesus, quando dizia: "Não se coloca vinho novo em odres velhos; do contrário, os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem. Coloca-se, porém, o vinho novo em odres novos, e assim tanto um como outro se conservam". (Mt 9,17)
Em resumo, preocupa-nos a seguinte questão: que tipo de cristão dá conta de ser autêntica testemunha de Jesus no mundo de hoje? Qual a sua identidade? Certamente não será o cristão imaturo na fé! Daí a preocupação da Igreja com a chamada Iniciação à Vida Cristã, que se trata, basicamente, de repensar a formação do cristão a partir de um processo “experiencial” da pessoa de Jesus e de seu projeto de vida, disposto a seguir Jesus como seu discípulo missionário.
Fomos evangelizados por um modelo de Igreja trazido da Europa pelos colonizadores, com fortes nuances tridentinas. Os evangelizadores nos legaram tradições e definições doutrinárias fortemente marcadas pela piedade, pela reverência ao Sagrado, pelo medo de Deus, por um religião mais conceitual que mesmo testemunhal, na qual as devoções ocuparam grande espaço. Em algumas fases da nossa história latinoamaricana de fé cristã está se aproximou um pouco mais da radicalidade evangélica, do Jesus histórico, mas, na maioria das vezes, a religião foi vista como uma roupagem conveniente, sem muita preocupação com uma identidade cristã. É como dizia o papa Paulo VI, quando combatia uma evangelização a modo de verniz, que não atinge o cerne da vida do cristão.
E assim, de geração em geração, com catequeses muito superficiais e de cunho racional, o povo brasileiro, na sua maioria cristã, foi evangelizado, recebeu os sacramentos, criou uma “casca” religiosa. Aquelas pessoas que tiveram a graça de encontrar comunidades calorosas, padres e catequistas preocupados com uma catequese que interagisse fé e vida, conseguiram aprofundar sua fé e dar “sustância” ao seu modo de viver a religião no cotidiano. Mas, infelizmente, grande parte dos católicos precisam ser re-evangelizados, como lembraram os bispos na Conferência em Aparecida, no. 287: “ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo e convidando-as para o seu seguimento, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora”.
Jesus abençoava as crianças e evangelizava os adultos. Nossa catequese inverteu esse processo, de tal modo que hoje temos uma defasagem imensa na qualidade de nossos adultos que, por sua vez, não são capazes de evangelizar os pequenos. Veja-se, por exemplo, quanta dificuldade tem os pais na educação da fé de seus filhos e quantos “terceirizam” essa sua obrigação aos catequistas!
A proposta da Iniciação Cristã é criar condições em todas as nossas comunidades de ajudar cada adulto batizado a ter uma autêntica identidade cristã. Por identidade entendemos aquilo que possibilita a alguém dizer quem é, em que acredita, como é sua vida, que valores possui, que testemunho de fé e capaz de dar. É repensar o jeito de fazer catequese com os pequenos e, sobretudo com adultos, passando de vez com uma catequese de “aprender coisas” para uma catequese de seguimento, compromisso com Jesus. É hora de por ponto final nos cursinhos rápidos para os sacramentos e em outras formas de “ensino” cristão isolado da vida de comunidade e do testemunho cristão no meio do mundo, sob pena de perdermos a força do fermento cristão e o sabor do sal tão necessário a este mundo insosso demais!